
Mais um
Ivone Boechat
Na organização social adotada pela grandiosa maioria das nações do
mundo inteiro, quando o poderoso opressor tem o comando de tudo, ter títulos,
diplomas, pós e doutorado e ainda ter competência, desempenho, saúde, disposição
e vontade significa absolutamente que o oprimido é apenas MAIS UM.
MAIS UM chega com seu currículo, ganha a concorrência do emprego,
estufa o peito de tanto elogio, toma posse e fica. Imagina-se importante,
desdobra-se em horas extras, procura agradar em tudo e agrada mesmo. É campeão
de honestidade, só que não enxerga que é e será sempre MAIS UM.
MAIS UM passa a vida inteira trabalhando como se estivesse
conquistado amizade, consideração e simpatia do opressor e, justamente, na hora
em que sente o frágil corpo dando os primeiros sinais de cansaço e não consegue
mais corresponder ao desafio desumano que lhe impõem, ousa questionar atenção,
mas descobre finalmente que é apenas MAIS UM.
Começa a dura batalha entre o ego ferido de sonhador retumbante
com a dura realidade, porque aí vêm as chantagens:
- Não, você não pode nos
deixar, você é importantíssimo para nós, jamais poderemos perdê-lo.
Imediatamente, providências são tomadas para que se melhorem as
refeições servidas na empresa, mais ar refrigerado, poltrona macia e giratória,
banheiros esplendorosos, vale transporte.
- Afinal de contas, um bom empregado dá lucro nos negócios, vamos
investir no seu conforto. Assim ele passará anos e anos metido aqui dentro e
nem vai lembrar de mais nada.
MAIS UM fica feliz, porque pensa que estão descobrindo seus
valores e nem vê que a máquina morrível de seu corpo foi aquecida para produzir
mais. O salário continua o mesmo, a
cobrança é cada vez maior, entre sorrisos e abraços, no corredor.
Comprometido com tantas “gentilezas”, afunda-se com a terrível carga,
esgota-se.
O tempo passa e as riquezas amontoam-se. É poderio, “onipotência”,
exploração e quem é pobre fica mais pobre. Nas reuniões esporádicas da
diretoria, acumulam-se reclamações, reclamam de tudo e como ninguém é de ferro,
partem os principais para a Europa, vão descansar do stress.
MAIS UM parte para o cemitério. Foi realmente
descansar e nunca mais saber que, de agora em diante, ele é contado somente
como MENOS UM.
(Extraído do meu livro O futuro chegou 1ª edição,
Reproarte-RJ 1999)
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