sábado, 16 de julho de 2016


Meu canto

Ivone Boechat

Eu faço versos 
pra espantar meus sustos,
dores, angústias e tristezas vãs...
vou caminhando pra esquecer o tempo,
e, nesse alento,
vou buscando as mágoas
pra apagar as chagas 
e recomeçar!

Sou como lírio
que ilumina o vale escuro,
sou como águias
à procura do infinito,
busco no vento a força 
contra o muro,
e, nesse alento,
vou buscando as mágoas
pra apagar as chagas 
e recomeçar.

Chuva miúda,
dor pequena,
tarde calma,
luz maior,
partir sem medo,
sem fazer segredo,
voltar sorrindo,
 se puder voltar,
e, nesse alento, 
vou buscando as mágoas,
pra apagar as chagas
 e recomeçar.

Revendo amigos,
conhecendo mundos,
atravessando abismos,
pra poder contar,
vou com as flores 
enfeitando estradas,
pra poder na volta te encontrar,
e, nesse alento,
vou buscando as mágoas,
pra apagar as chagas
e recomeçar.

quarta-feira, 13 de julho de 2016





A sustentabilidade humana

                             Ivone Boechat

O homem busca, em desespero, mas antes tarde do que nunca, a preservação do que sobrou neste Planeta. Não é impossível, até porque atitudes simples têm o poder de mudar o rumo de coisas importantes. Mas eis o impasse: por que não se começa a educar para o equilíbrio da ecologia humana? Quanto custa o esforço por um abraço, um sorriso, pela manifestação de afeto, pela demonstração do perdão?
A Escola gasta quase todo o tempo destinado a ela resolvendo equações de primeiro e segundo graus e a criança vive refém de deveres de casa. Professores desesperados ensinam anos e anos a encontrar o valor de X e o jovem sai, na maioria das vezes, sem encontrar o valor dele mesmo. Dirão muitos que a concorrência exige tudo isso na preparação para a corrida desenfreada ao mercado de trabalho: passar nos concursos, nos vestibulares e arranjar emprego, porque geralmente só passa quem sabe mais equação e rebincoca da parafuseta.
A educação tem os recursos pedagógicos para orientar a humanidade, ajudando a transformar conceitos. É possível mudar comportamentos. Quem falhou? Ao invés de ensinar só teorias, conteúdos, doutrinas, por que não se ensinam valores? Fé, amor, paz, união, misericórdia, fraternidade, solidariedade, preservação? Ensinar ao homem a ser bom é também um grande desafio à educação. Todas as guerras do Planeta têm origem nas doutrinas.

Quando o homem reflorestar as ideias, podar os galhos secos da ira, regar suas raízes no manancial da fé, vai colher os frutos de um mundo oxigenado de amor. O homem equilibrado vai equilibrar o Planeta!

domingo, 10 de julho de 2016

Self-service de valores

Ivone Boechat


A vida é uma grandiosa festa, um verdadeiro banquete de valores e dádivas, onde os convidados podem se servir à vontade. O primeiro passo é educar-se para selecionar bem o cardápio e ter muito cuidado com a quantidade que lhe darão saúde física e espiritual.
Sucesso:      Vá devagar. O excesso pode estofar o peito!
Felicidade: Faz a reposição hormonal do bem estar.
Casamento: Mastigar bem é recomendável para evitar  indigestão.
Convivência: Tem muita pimenta. É saboroso. Cuidado com os excessos.
Amor:            Alimento integral. Sirva-se à vontade. Leve as sementes para casa.
Carinho: Não coma em prato fundo. Quando transborda incomoda aos outros.
Alegria: Ofereça sempre um pouco ao seu vizinho.
Solidariedade: É massa. Coma na hora, se guardar endurece.
Compaixão: É um vegetal, fortifica e dele se aproveita tudo.
Amizade: Salpique bastante afeto, tempere com muita compreensão. Fria, perde  o aroma e o sabor.
Riqueza:  Encha o prato, coma devagar. Nunca deixe de repartir com o próximo
Sonho: É excitante. Excelente para perfumar a realidade.
Paz: É um suco que se deve compartilhar, diariamente. Use o adoçante natural do querer.
:      Não pode faltar! Faça sua encomenda diretamente à central divina.
Gratidão:      Nunca ponha para congelar. É um prato que se come na hora, quente.
Esperança:  Nunca perde o prazo de validade. Coma à vontade.
Oração:        Não é comestível. Perfuma com sua essência a comunhão com Deus.


quinta-feira, 7 de julho de 2016



Criança

Ivone Boechat


Toda criança
é semente de paz ou de guerra,
é preciso adubar a terra
dos canteiros do
sonho infantil;
afastada da educação,
cuidado, perigo:
a criança deve
aprender
o verdadeiro significado
da palavra amigo,
a separar o joio do trigo,
a lutar e vencer;
as crianças são projetos seus...
jamais se esqueçam de estar perto,
nenhuma vida dá certo,
quando afastada de Deus.

segunda-feira, 30 de maio de 2016





Monólogo da criança

Ivone Boechat

Sou criança! Cheguei, recentemente, de uma longa viagem, andei pelo caminho misterioso do pensamento dos meus pais e, durante a concepção, fiz um estágio muito feliz, ao lado do coração da minha mãe.
Estou aqui, um pouco assustada, porque os adultos conversam coisas estranhas que ainda não consegui entender. A vida é simples, bonita e colorida, por que complicam tanto? Sabe, imaginam que nós, crianças, somos incapazes, fracas e bobas.  Não é nada disto.
A gente apenas se esforça para crescer e ajudar a construir este mundo: soltar os passarinhos das gaiolas; fazer jardins para os beija-flores; salvar o azul cristalino dos rios; abrir as janelas das casas e soltar as pessoas... proteger os animais!
As pessoas crescem, ficam fortes, nos sufocam com as suas idéias, não nos deixam falar.
 Quero dizer que toda criança traz uma mensagem divina de paz.

Por favor, se você está triste, magoado, ou muito cansado, que culpa têm as crianças? Não deposite suas dores e lágrimas nesta plantinha que mal começa a brotar, ela se chama criança, para crescer e florescer feliz dê a ela fluídos magnéticos e milagrosos do Amor.

Publicado no livro Escola Comunitária, 1.ed. CNEC-Brasília  1993 DF

terça-feira, 24 de maio de 2016



Socorro, meus netos estudam numa escola moderna!

                                                                                 Ivone Boechat

Constantemente, incessantemente, ouvem-se agressões à Escola Pública tradicional como se ela fosse um aparelho com manual mofado para a fabricação de conservadores.  Sobrevivente feliz desse “tipo” de escola, sou testemunha ocular, porque estudei nela e quero relatar o que se passava ali.
O hino da Escola era lindo, foi composto por um pai de aluno. As datas cívicas não passavam em branco. A Escola virava uma festa!
Estudávamos, sim, numa cartilha de modelo único, considerada, hoje, como sucata antipedagógica, quadrada, boba, sem cores, barata, mesmo assim, nem todos tinham acesso a ela, houve casos em que o aluno conseguia uma toda despencada, mas a encapava e conseguia recuperá-la, porque aquela cartilha era preciosa para nós...A turma inteira aprendia a ler.
Na sala de aula, havia um “quadro-negro”, desbotado, dividido ao meio, porque eram duas turmas de séries diferentes na mesma sala. Nós aprendíamos a respeitar o espaço do outro! Ah! Não posso me esquecer... havia disciplina...Quase ninguém tinha transferidor e compasso, mas éramos capazes de reconhecer o compasso das músicas e sabíamos transferir carinho.  Havia aula de música, trabalhos manuais, e aprendíamos a fazer bainhas, a pregar botões e a costurar as roupas das bonecas. Aprendemos a gostar de artes! A ginástica era rítmica, ao som de música clássica! Aprendemos a gostar das artes! Discutíamos os autores.
O material escolar se resumia em dois ou três cadernos finos, lápis nem sempre coloridos. Poucos possuíam uma caneta a tinta...dava status...era o máximo! Na minha Escola havia um coral e cantávamos em latim, francês e inglês. Brincávamos no recreio com petecas, bolas, piões. O recreio era maior, brincávamos de roda. Fazíamos peças de teatro. Quem tinha um instrumento musical levava para se apresentar nas festas da Escola!
Boas maneiras, ética, elegância ao falar, treino ortográfico eram comuns. Nossa letra não era um garrancho, tínhamos caderno de caligrafia. O livro para estudo da língua portuguesa tinha uma antologia dos poetas brasileiros. Até hoje sei de cor Augusto dos Anjos (quase ninguém hoje sabe que ele existiu) Olavo Bilac, Machado de Assis, Casimiro de Abreu, Castro Alves e muitos outros.
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Como vai a Escola Pública moderna hoje ?