
Ivone Boechat
O culto
de Natal apenas começara e ouviu-se um estrondo. Uma tragédia. Na hora da
oração, todos se assustaram com o barulho e o pinheirinho de Natal, lindo,
cheio de penduricalhos, com muitos sacos de balas, caiu. As crianças tentavam segurar
os galhos pesados, mas os fios do pisca-pisca evitaram o pior, seguraram aquela
beleza toda. Vieram os fiscais oficiais da árvore, os diáconos:
-
Quem
derrubou ?
No
inquérito, as perguntas e suspeitas vão e vem e um “irmão” foi logo perguntando
:
-
Foi
a filha do pastor ?
Sabe por que a suspeita? Eu ficava
estarrecida com os encantos da árvore e só faltava virar um enfeite daqueles.
Não desgrudava um minuto. Felizmente, apesar dos meus pesados e experientes
seis anos, não fui autora de tamanha tristeza. Na hora da oração (porque as
orações antigamente davam tempo pra se fazer muita coisa, eram enormes), fui
dar um passeio lá fora, para conferir as novidades, justamente, na hora em que
a árvore caiu. Não derrubei a árvore, mas não me livrei da bronca pelo passeio
na hora da oração...Era difícil ser criança!
Geralmente,
a árvore ficava “plantada” perto do púlpito, até o dia trinta e um de dezembro.
O zelador, então derrubava aquilo tudo e arrastava para uma grande fogueira. A
gente (os filhos do pastor) ficava de plantão, porque já se tinha plena certeza
de que algum saquinho de bala sempre ficava esquecido em algum galho escondido
lá no alto. E na lei das crianças, quem vê primeiro é dono. Era um verdadeiro
sufoco, com dois olhos somente, ter que descobrir, em segundos, a maravilha.
Enfim, lá estava, não um, mas dois, três sacos de balas, entre os galhos
murchos. Que festa... Era preciso disputar com as formiguinhas o que sobrava,
sem azedar. Grande correria, outra descoberta fantástica como essa, só daí a um
ano.
(Educação-a força mágica)
Nenhum comentário:
Postar um comentário