
Memórias do Natal
Ivone Boechat
O Natal sempre foi o melhor dia de nossa
infância... Papai já amanhecia à procura de um pinheiro que poderia ser
qualquer árvore, desde que bonita. Era o que não faltava em Santo Aleixo. Agora, ele saía à procura de um latão de
vinte litros de banha. A gente ali, querendo ajudar, atrapalhava o dobro. Para
falar a verdade, já botei a lata na cabeça e só não entrei lá dentro, porque
tive medo.
Na hora de “plantar” o pinheiro que ia virar
árvore de Natal, quanto susto ! Plantava de um lado, caía do outro. Quando o
pinheiro ficava firme, era uma festa! Era transportado para um canto, bem
próximo do púlpito e aí vinham as recomendações :
-Não fiquem perto, o pinheiro pode cair.
Como não ficar
perto ? O ideal mesmo era ficar em cima dele, debaixo, do lado, mas longe, nem
pensar ...
O melhor de tudo era ver enfeitar a árvore.
Sininhos, bolas, lindas estrelas e quantos sonhos... Minha mãe fazia dezenas e
dezenas de saquinhos de papel crepom coloridos e enchia de doces e balas. Tudo
ela fazia. A criançada, eufórica, não desgrudava, até a hora final.
No dia vinte e
cinco de dezembro, a multidão ia chegando para o culto que começava, às
dezenove horas e trinta minutos, britanicamente.
No templo havia um órgão de pedal velho,
que a professora Elzira Pinto tocava, um coral de crianças e outro oficial da
Igreja. Muitas peças representadas,
num palco improvisado (a cortina sempre enguiçou) e as crianças tinham que
seguir à risca as recomendações: não podiam rir. Era proibido. Isto sim era
difícil para a criançada. Imagine um “irmão” de cavanhaque postiço, de saia,
representando um mago? Era realmente uma “comédia”. Tão logo começava o culto,
quem fosse fazer uma “comédia”, tinha que ficar preso numa sala quente,
fechada, com roupas de papel crepom ou enrolado em lençóis, com turbante,
esperando a hora de entrar. A gente suava e não podia sentar, senão amassava o
traje. Mas, o pior ainda viria. Era o momento de subir ao palco e não rir. E o
medo de esquecer o papel? Um dia, ri, a ponto das cortinas serem fechadas e ali
apavorada levei uma bronca histórica. Abriram-se as cortinas, com fiscais para
todo lado, vigiando para a gente não rir. De cabeça baixa, sem olhar para
ninguém, falei minha parte, sai dali e fui chorar. Também, de moringa na mão,
turbante, enrolada num pano, olhando as colegas daquele mesmo jeito, quem não
ria ?
Para evitar constrangimentos, no outro Natal
deram-me um monólogo para fazer. Por trás da cortina, ficava a irmã Ulda com o
“ponto”. Esqueci tudo. Não me deixei abater, inventei novo texto, ali, na hora!
Fui criada ouvindo falar textos de Natal, era só sair falando. Deixei o “ponto”
desesperado, mas, ao final, ganhei um abraço e muitos elogios dessa irmã.
(Extraído do livro Memórias de uma Filha de
Pastor)
Nenhum comentário:
Postar um comentário